EnvelheSER

Fiz aniversário; 43 anos! Não tenho problema com dígitos. Gosto de me cuidar, de estar bem para minha idade e é claro, receber aqueles elogios: “Não parece que você tem essa idade!” ou “Você está está ótima, eu te daria 37…” É muito bom; sorrio com gosto. Vale aqui também lembrar, do dia em que meu filho disse que na escola ninguém acreditava que eu tinha 45! Envelheci uns 10anos na mesma hora. Essa foi ruim. Na verdade eu sinto que meu espírito é antigo, velho; vivido já em outras ocasiões, dimensões, lugares e momentos; e então eu quero mesmo é envelheSER. Aqui estou com minha mania de inventar palavras. Gosto muito da palavra VELHO; ela não tem conotação negativa para mim. Nem mesmo quando eu era pequena. Ao contrário! Tenho lembranças incríveis dos muitos finais de semana que passava na casa da minha avó Rosa (daí vem o meu nome), que era na mesma rua da minha casa. Sábados e Domingos com ela e com minha tia fada-madrinha, ouvindo estórias, músicas, indo a igreja ainda que só interessada na pipoca depois da missa, fazendo tapeçaria, cozinhando, rezando o terço e a Salve-Rainha, mesmo rimando com bobagens só em pensamento. Era prazeroso demais e eu sabia naquele exato momento o quanto aquilo era valioso. Tenho o maior carinho por coisa velha. Gente velha, casa velha, cidade velha, carro velho, aquela blusinha velha… Velho sim, estragado não! Gosto de histórias! A vida é feita de histórias! Tristes, alegres, boas, ruins, mentirosas, verdadeiras. Confesso que tenho um lado velho bem intenso, de palavras, hábitos, ótica e gostos. Alguns me atrapalham muito e fico por aí tentando acomodar essa velharia no meu mundo ou na verdade o mundo novo na minha velharia. Gosto de atores velhos, de preferência aqueles que pouco repuxaram as rugas. Filmes velhos? Deleite! Com direito a ver a cena preferida várias vezes. Al Pacino na trilogia de O Poderoso Chefão é um prazer sem medida. Gosto de sentir a velha sensação que eu já sei como vou sentir. É mágico! Músicas? Essa parte é tensa pois o mercado fonográfico é frenético e eu sou uma dinossaura lenta e desconcentrada, porque ainda corro o risco de errar a letra da música antiga. Perdão! Rock nacional prá mim é o antigo. Roberto Carlos é o Cara quando vem cantar na minha cidade e no Especial de fim de ano! Quer músicas mais gostosas de cantar e dançar do que as da Rita Lee ainda de franjinha?! Titãs, Paralamas, The Police, Dire Straits, Erasure, essa era eu, adolescente nos anos 80! A roupa mais confortável ainda é o jeans, mas se valer falar a verdade em uma confissão de ex-adolescente-rebelde, e ainda deixada de herança para a filha, elejo o moletom (ao invés da calça jeans) e a camiseta! E com licença as fashionistas, sem tênis ok?! De Havaianas mesmo, unhas bonitinhas, pezinho limpo e tá tudo certo. Andei comprando uns colants que a moça nem teve tempo de me corrigir pois cheguei logo perguntando por bodies. Ponto prá mim! Eu não disse que vivo tentando acomodar a velharia no meu mundo? Se o redemoinho desnecessário do cabelo virar “fiozinhos de neve” como carinhosamente minha amiga e cabeleireira Fran chama, em menos de 15 dias, uso turbante ou gigolete largo, com direito à vários elogios e mais uma semana adiando o salão. Acho mesmo que beleza e juventude não necessariamente andam juntas. Mas é prá andar sim. Quis dizer que beleza e maturidade também podem e muito se harmonizar. Porque beleza não se resume a rostos simétricos, corpos magros e desenhados. Beleza eu vejo na voz, no olhar, no gesticular funcional e sem nada de pseudo charme ansioso, no sorriso real, pode até vir (às vezes, não exagera!) com uma gargalhada desnecessária. Há muita beleza no pensar antes de falar. No senso da pessoa da realidade daquela beleza. A turma aqui é grande e de várias idades, então refrescam minha mania de velharia, filhos são ótimos termômetros. Mas às vezes inverto os papéis e dou-lhes umas doses do que eu gosto muito: Fagner e Zé Ramalho… Aquela voz do Zé! É demais! Maravilhosa! Mas traumatizou os gêmeos de tanto escutarem no meu carro Chão de Giz e Bicho de 7 cabeças, 7 da manha em volume relevante. Não é de arrepiar? Sim, voltando ao trauma… Nada que não se resolva em mais 2 ou 3 anos na sala da casa de praia mesmo! Fagner foi assim com Borbulhas de Amor e As velas do Mucuripe goela abaixo deles e para meu deleite. O palco foi o sofá, o microfone só algumas geladinhas e a banda era o barulho do vento e das ondas do mar. Perfeito! Mas não pense que meu envelheSer é somente poesia, filosofia e romantismo não! Ao contrário! EnvelheSer exige certa cadência e é preciso apressar o passo e tentar harmonizar com a realidade. Que pode ser uma decepção, uma dor, uma perda. Esse mês mesmo, tão pequeno ainda e já envelheci 10 anos em 1 semana. Estou tentando com muita difículdade praticar o não julgamento, o perdão, a compaixao… É uma droga ruim com muito efeito colateral! Fácil de escrever e dificílimo de fazer. Minha dica para envelheSer: seja você mesmo. Recolha-se e tente praticar o seu silêncio quietinho, fique você e tudo que estiver sentindo. Elimina, lapida, ajeita, completa, aguenta, admite, engole… Depois você resume para entender o que realmente sente, o que te consome, o que é fácil e difícil. Aí se quiser comemora, fotografa, publica, filosofa e romantiza. Dê -se oportunidade de sentir e perceber as coisas a sua volta e então decida como encarar. Faça menos poses, uses mais as cores naturais, mesmo sendo preto e cinza. Deixe o filtro de lado e olhe bem no centro da sua dor, difículdade e tristeza. Aí é você com ela! Ah! Uma confissão já depois de envelheSER um pouco: eu desaprendi a fazer tapeçaria, mas ainda sei falar tudo que os fiéis tem que dizer numa missa e não curto mais pipoca. Não rezo mais a Salve Rainha rimando com bobagens e isso prá mim tem um efeito libertador: a prece, é meu “aplicativo” preferido! Então! Eu envelheci mesmo e por isso quero continuar a envelheSER.
Rosana Pinheiro

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